Como o objetivo do blog é falar de coisas relevantes na atualidade, apesar da falta de tempo de atualizar deste que vos fala, gostaria de fazer uma breve análise discursiva de um texto que vi por esses dias. Inicialmente gostaria de dizer que não tenho nada contra a pessoa que o escreveu, sequer a conheço, mas o que me chamou atenção no texto foi a retórica simplista que esta pessoa que escreveu se utiliza. Não venho com isso dizer que a autora constrói essas nuances discursivas conscientemente, mas que não me impede de racionalizá-las.
O texto está disponível em:
O texto é de uma publicitária e é publicitário. A autora diz que não está ganhando nenhum dinheiro da Moura Doubain (construtora do empreendimento que quase com certeza irá ocorrer independentemente da opinião pública), apesar de já ter feito comerciais para a mesma. Não me cabe questionar a idoneidade, nem a honestidade de ninguém, mas tal fato pode ter contribuído para a perspectiva que a autora adota. Apesar de ser bem escrito, direto, com palavras fáceis, a estética se sobressai ao conteúdo.
Não vou me ater as referências que ela utiliza para florear as suas concepções, porque não cabe aqui uma visão esteta do texto, mas suas práticas retóricas.
A retórica começa com a liberdade da autora que já citei (não estar sendo paga pela Moura Dubain, apesar de já ter sido empregada por esta) e, a partir desta, uma motivação pessoal de escrever o texto. Num segundo momento, a autora apropria-se do recurso de autoridade para afirmar que o que está dizendo não surge do nada (como os desinformados e contraditórios ocupantes do estelita), mas porque ela leu o projeto. Este recurso de autoridade é muito utilizado para supervalorizar a retórica, dotá-la de um poder acima dos outros (tanto leitores, quanto ocupantes do estelita).
Ela diz:
"A – Alguém que faz parte do movimento contra a verticalização mora, na prática, em casas com jardim e quintal? Porque eu não entendo uma sociedade que mora em prédios protestar contra a construção de, de, de… Prédios?"
Mais uma vez é latente o recurso de autoridade. Como você pode reclamar e ser contrário a prédios se você mora em um? Isso, contudo, não constitui uma contradição, já que o fato de a pessoa morar em prédio talvez lhe induza a não gostar da verticalização e perceba mais de perto as mazelas desse estilo de vida. A autora, entretanto, se utiliza do que poderia ser um ponto a favor da manifestação contra ela. Se você mora em um prédio, provavelmente é porque o mercado imobiliário lhe impeliu a isto, comprando o local onde morava uma pessoa e vendendo para moradia de 50, 100 pessoas e lucrando absurdamente com isso.
A segunda propensa contradição é que as pessoas que são contra, passam as férias nos EUA, ou em lugares com muitos prédios. Não vou me deter muito nessa contradição porque isso nada mais é do que um devaneio. Quem lota a embaixada dos EUA (disso posso falar porque moro muito perto e vejo quase todo dia filas quilométricas) são pessoas de alto poder aquisitivo, todos comprando água de coco por 3 reais, ou 3 e 50, guarda-chuvas pelo dobro do preço, com seus óculos de sol caríssimos e seus cabelos escovados. Tirando o fato de que constitui novamente uma retórica de autoridade, onde não se julga os argumentos, mas a competência e conhecimento de quem argumenta.
A terceira propensa contradição é que se há um vazio a tanto tempo no cais, por que só agora se resolveu fazer alguma coisa quando decidem construir o belíssimo projeto intitulado: "novo recife" ? Mais uma vez um recurso de autoridade na fala. Ela se utiliza de uma omissão pretérita para negar e descredibilizar uma ação presente.
"Vamos lá: você que mora numa casa e que é contra prédios, detesta a Moura Dubeux (e ainda nem sabe que além dela a Prefeitura, o Governo e mais três construtoras fazem parte do projeto), não quer o Recife parecendo Nova York e odeia revitalização sabia que:
A – Bares, restaurantes e livrarias também serão construídos na área?
B – Um praça faz parte do projeto?
C – Ciclovia, pista de cooper e um píer estão incluídos na planta original?
D – Empregos diretos e indiretos serão gerados durante e depois da construção?"
Repare que ela se dirige a quem mora em casa, pois, quem mora em prédios não tem legitimidade discursiva de ser contra o projeto de verticalização do Moura Dubain e adendos. Devemos ser a favor do projeto porque bares, restaurantes e livrarias serão construídos, além da ciclovia, pista de cooper e um pier.
Bar realmente não é uma coisa que falte no recife antigo. Quem passou, mesmo que só uma vez e de carro pelo local sabe que não faltam lugares dedicados a nobre atividade etílica. Uma das melhores livrarias também fica próxima ao lugar onde o projeto vai ser implementado (até porque, quem patrocina as campanhas de governadores, prefeitos, deputados e vereadores são estas mesmas empreiteiras). Como ciclista, as vezes que passo por ali não vi problema algum, muito menos se comparado a outros trechos do recife onde as vias são inadequadas(muito eufemisticamente falando), o trânsito é absurdo e os carros não se importam em lhe fechar sempre que podem.
Realmente serão gerados milhares de empregos, a construção civil está em segundo lugar no quesito de empregabilidade do país. Mas e aí? Só existe essa forma de gerar emprego? Bezerra da Silva costumava brincar dizendo que um malandro gera cinco empregos: O policial pra prender, o delegado pra autuar, o promotor pra acusar, o juiz pra prender e o advogado pra soltar. O exemplo é perfeito, porque não importa a ética, ou os valores envolvidos nisso, apenas os empregos gerados.
Os "argumentos" se resumem a isso. O texto é cheio de uma ideologia desenvolvimentista, que se omite ante as contradições da sociedade e simplifica a questão entre, escolhidos (que podem comprar um apartamento na área) e não escolhidos (que não podem e querem atrapalhar a felicidade alheia). Contudo, o mundo não se resume a propensa dicotomia. Vivo numa das cidades mais desiguais do mundo, com um problema de mobilidade urbana, corrupção, nepotismo, autoritarismo, etc. O menor dos problemas é uma publicação numa mídia alternativa, mas do mesmo modo que não posso me omitir ante todas essas mazelas não posso e não devo me omitir ante a legitimação dessa lógica cruel e que apenas corrobora ainda mais com as disparidades da grande, cada vez maior (apesar de seus arranha-céus) província Pernambucana.
terça-feira, 17 de abril de 2012
domingo, 5 de fevereiro de 2012
Da impossibilidade de argumentação ou Dos limites argumentativos da racionalidade
Como o leitor imaginário deve saber, Schopp era conhecido por ser um filósofo irracionalista, não pelo fato de ser irracional, mas por demonstrar as limitações do processo de racionalização da vida. Contanto, não via alternativa a esta ausência de sentido do viver, que não o ascetismo. Nesse ponto, Nietzsche - e eu também - discorda deste que considerava tão grande filósofo.
A parte da solução encontrada por Schopp, o que importa é o questionamento levantado por este. Se não há um sentido lógico-racional para as contingências de nossa existência, como podemos viver na crença de um mundo racionalmente administrado? Ocorreu-me hoje que a própria razão e a própria lógica argumentativa responde a outros tipos de estímulos que não necessariamente ligados a alcançar uma solução,senão, muito mais ligados a imposição de um ponto de vista. Me recordei de uma frase que ele fala :"Os homens usam-se da razão para legitimar suas vontades e não o contrário". A vontade, ponto principal do seu trabalho filosófico mais importante, é quem governa a razão, e quando esta já não dá conta de contrapor-se racionalmente e sistematicamente ao objeto discursivo em questão recorre à retórica. O que Schopp chama de argumento ad hominem. Tornando-se impossível a argumentação ante a vontade alheia...
Este mesmo filósofo dizia que não é preciso ler toda a obra de determinado autor para saber se esta é, ou não, ruim. Basicamente é o que ele fez com a obra hegeliana contrapondo-se aos seus princípios apriorísticos que impõem-se como fatos, quando na realidade são apenas percepções.
Muito interessante esse vídeo sobre a percepção de Schop com relação a "Existência como doença". Vale a pena dar uma olhada, traz um resumo muito interessante sobre a obra deste autor que infelizmente continua sendo muito pouco estudado na academia.
A parte da solução encontrada por Schopp, o que importa é o questionamento levantado por este. Se não há um sentido lógico-racional para as contingências de nossa existência, como podemos viver na crença de um mundo racionalmente administrado? Ocorreu-me hoje que a própria razão e a própria lógica argumentativa responde a outros tipos de estímulos que não necessariamente ligados a alcançar uma solução,senão, muito mais ligados a imposição de um ponto de vista. Me recordei de uma frase que ele fala :"Os homens usam-se da razão para legitimar suas vontades e não o contrário". A vontade, ponto principal do seu trabalho filosófico mais importante, é quem governa a razão, e quando esta já não dá conta de contrapor-se racionalmente e sistematicamente ao objeto discursivo em questão recorre à retórica. O que Schopp chama de argumento ad hominem. Tornando-se impossível a argumentação ante a vontade alheia...
Este mesmo filósofo dizia que não é preciso ler toda a obra de determinado autor para saber se esta é, ou não, ruim. Basicamente é o que ele fez com a obra hegeliana contrapondo-se aos seus princípios apriorísticos que impõem-se como fatos, quando na realidade são apenas percepções.
Muito interessante esse vídeo sobre a percepção de Schop com relação a "Existência como doença". Vale a pena dar uma olhada, traz um resumo muito interessante sobre a obra deste autor que infelizmente continua sendo muito pouco estudado na academia.
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