A abordagem de uma temática tão complexa exige do autor que se propõe a tal abordagem, bem como do leitor, um nível de objetividade elevado – para ser no mínimo eufemístico – que talvez não corresponda a liberdade subjetiva que a presente atividade permite. Contudo, já que esta liberdade está posta, de modo que, fique ao critério do autor escolher a abordagem, sinto-me na obrigação de construir o artigo de modo que me convir.
Posso enumerar incontáveis aspectos da obra de arte que desmistificam o projeto de modernidade tão bradado pelos legitimadores do modo de produção capitalista – do mesmo modo que os projetos artísticos que legitimam o mesmo, como o futurismo (abordado pela perspectiva de Walter Benjamim em “A obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica”) – que findou por perder suas características fundamentais, o que de certo modo fez com que autores contemporâneos declarassem a morte do mesmo num pretenso “pós- modernismo”. Como todos os “pós” e “prés” esta perspectiva (pós- moderna) pauta-se no movimento que se declara “morto” (modernismo). Se analisarmos criticamente este movimento perceberemos características do princípio do modernismo, bem como, do seu meio e “fim”.
Zygmund Baumam, o sociólogo mais lido na atualidade, refere-se as relações uma diluição/ liquefação dos laços familiares, identitários e etc., do mesmo modo que, a perspectiva de tempo como sendo de uma “presentificação” constante e de uma aceleração na sua vivência. Baumam sugere que somos como pessoas correndo sobre uma fina camada de gelo, não importa o rumo que estamos tomando, mas a velocidade que temos de impor a nossa caminhada para que não caiamos em um mar gélido.
O mais interessante é que o título de um artigo fundamental deste pretenso movimento, que “falece” o projeto moderno, possui o título de “Tudo que é sólido se desmancha no ar” (frase cunhada por Karl Marx em meados do século XX) e se referem as pessoas como mercadorias de troca como outra qualquer e das coisas como “subjetificadas”, possuindo características dos indivíduos (O que não se encontra de modo algum além do conceito de reificação marxiano, bem como, de sua célebre frase “o capitalismo torna todas as relações interpessoais em meras relações mercantis”). De certo modo, o que se caracteriza como pós- moderno termina sendo o que Jacques Aumont diz ser tipicamente moderno, retomar algo muito conhecido e dar-lhe uma impressão de novidade (ou, na opinião da filósofa Marilena Chaui, a simples mudança de nomenclatura do que se caracterizava como neoliberalismo).
A principal característica que distingue o tratamento dado a obra de arte no capitalismo (seja financeiro, mercantil e até mesmo primitivo) é a sua capacidade de transformação de sua mais mordaz e sagaz crítica em mais uma mera mercadoria. Isto ocorre tanto na arte, quanto na ciência, quanto em críticas cunhadas a parte destas duas instâncias discursivas. Seja Karl Marx, Foucault, Orson Welles, Arthur Schopenhauer, Nietzsche, o capitalismo consegue mercantilizar sua própria critica. É este processo de regugitrofagia que também pretendo abordar criticamente no presente artigo. Uma obra, mesmo que seja iconoclasta é reapropriada pelo capitalismo que “transforma ferrão em abridor de lata”.
O que caracteriza profundamente o capitalismo é a totalidade de seu projeto, bem como do que chamamos de modernidade, que como Aumont relata, está tão esvaziado em decorrência de seu uso indiscriminado que se torna difícil erigir alguma critica e até mesmo de caracterizá-lo. Em decorrência desta totalidade, este processo se torna em certo aspecto, totalitário, não admitindo outra forma de organização do espaço e do tempo, padronizando-os.
O que mais me interessa no cinema é como se podem ser democratizados, de maneira simples, os mais complexos conceitos e críticas filosóficas, sociológicas históricas, psicológicas (entre outros) tornando-os conceitos imagéticos muitas vezes de fácil assimilação (assim como, esta obra subverte a lógica do pensamento reificante/ mercadológico).
Para citar alguns exemplos, dois cinematográficos e dois filosóficos, gostaria de citar quatro obras que considero fundamentais para esta perspectiva. A primeira diz respeito a obra do filósofo, já citado, Arthur Schopenhauer, a segunda do cineasta, também já citado, Orson Welles, a terceira diz respeito a obra de Platão (O Banquete em especial) e quarta refere-se ao “Show de Truman” atuada por Jim Carrey. Ao meu ver estas obras possuem uma forte ligação no que diz respeito a desconstrução do principal sustentáculo das ideologias caracterizadoras do capitalismo (contemporâneo e pretérito, como já falado) cunhadas em um único arcabouço denominado modernismo. Esta característica basilar está atrelada a uma idéia de pretenso progresso técnico, científico e histórico de uma maneira geral. A modernidade casou-se com o progresso e até os dias atuais gera profícuos filhos que os sustentam, mesmo que lhe atribuam outras nomenclaturas.
A obra de Schopenhauer atrela-se ao pensamento de Welles, pois, é contrária ao pensamento filosófico que embasa a perspectiva supracitada (a tradição hegeliana filosófica e histórica que torna crível, através de sua dialética, esta visão) e isto é muito bem demonstrado “praticamente” em “Cidadão Kane” de Welles.
Schopenhauer possuía uma visão de história “caótica”, onde as coisas tomavam rumos que não necessariamente chegariam em uma maior democracia, liberdade, horizontalização do conhecimento e das riquezas geradas pela sociedade (como cria o herdeiro da tradição hegeliana, Karl Marx, por exemplo). Ele faz uma critica aos que lêem muito, dizendo que estes usam livros como escudos para não pensarem autonomamente, bem como, a filosofia universitária que está sujeita a um aparato estatal e que, de certo modo, termina servindo para legitimação do mesmo e não para a busca do saber e da caminhada rumo ao conhecimento. É justamente o que faz a filosofia hegeliana ao tornar o estado prussiano a vanguarda do processo “civilizatório” (apesar de não usar estes termos possui esta denotação) da humanidade. Do mesmo modo que Marx usa a industrialização inglesa e européia de um modo geral, como o baluarte do progresso humano. Na minha concepção, esta perspectiva marxiana termina por legitimar o que supostamente contesta, ao embasar-se na mesma para erigir sua crítica e seguir a mesma lógica do seu objeto de contestação.
Finalmente dirigindo-me a construção critica do cinema, este, apesar de seguir intrinsecamente a lógica do capital (principalmente por ser uma obra de arte mais onerosa do que as demais), pode servir como meio de veiculação de uma critica profunda a concepção ideológica do progresso e do projeto de modernidade. No caso em questão (“Cidadão Kane”), Welles mostra como a mídia apesar de seu desenvolvimento técnico pode continuar seguindo a lógica do monopólio e não caminha necessariamente rumo a democratização. Algo essencial para percebermos isto é o modo como os tecnófilos caracterizam as novas mídias (como a internet, blogs e etc.), como intrinsecamente democráticas, do mesmo modo que Brecht caracterizava o rádio em sua época (hoje em dia conhecido por ser um veículo, como a mídia televisiva, extremamente centralizado).
Remeto-me a estes nomes (Schopenhauer, Welles, Hegel, Marx) como “comodismo referencial”, não se constrói uma obra filosófica de tal profundidade sem “subir em ombros de gigantes” como falava Newton; tampouco se constrói uma obra cinematográfica de tamanha complexidade, como a citada, sozinho. É a contestação dessa perspectiva do autor, que fala Aumont e outros autores, que não torna contraditório este artigo, pois, este conceito (autoria) está intrinsecamente ligado ao desenvolvimento do capitalismo e a emancipação artística do artista (do clero e da nobreza) que constituem a base para a formação do mesmo. Agora, o artista se transforma em um profissional liberal e com isso dilui-se a figura do mecenas e sua arte tem que ser rentável (por isso, também, a questão da mercantilização da arte e da perda de aurática da mesma, para usar os termos de Benjamim).
Deste modo, concluo esta breve análise realçando a característica que mais me atrai no cinema, na ciência e em todas as práticas discursivas de uma maneira geral, a subversão que possuem estas práticas ao desvelar as ideologias contemporâneas que se pretendem absolutas e verossímeis. Uma obra que, para mim, é a perfeita “personificação” desta subversão/ desvelamento é o “Show de Truman”. O título é oriundo das palavras inglesas “true” (verdade) “man” (homem) “show” (mostrar). A estória aborda a vida de um homem comum que ao nascer foi vendido a um programa de televisão transmitido diariamente por todo o país, por todas as horas do dia. Truman não tem consciência de sua condição e todos os aspectos de sua vida foram atuações que ele sequer imaginava. Por acaso, passa a desconfiar da forma como as coisas acontecem e descobre a verdade acerca de sua condição e opta por fugir do programa e mostrar a verdade (“the man who show us the true” em inglês). Contudo, ao optar pela verdade é desacreditado pelo público, ao passo que quando vivia no simulacro era tido como verdade pelo telespectador. Nada que Platão não soubesse há três mil anos atrás.
Assim sendo, acredito que a luz do projetor de pode servir tanto como a luz da fogueira da caverna d”O Banquete” (Platão) que fazia com que os prisioneiros enxergassem monstros assustadores, como a luz que emanava do sol e que mostrava que as sombras do fundo da caverna não passavam na verdade de simulacro dos homens que o haviam aprisionado.
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