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quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Sociedade "dicínicar"

O cinismo da sociedade disciplinar é sintomático da falência de qualquer viabilização de um modelo crítico à sua hegemonia.
A mais perfeita representação deste cinismo, na minha concepção, pode ser observada na propaganda de uma das maiores multinacionais do mundo:
http://www.youtube.com/watch?feature=trueview-instream&v=uIsi357ixk0

Pretendo não me prolongar na crítica porquê a própria propaganda já o faz pelo seu cinismo ideológico.
"Câmeras de segurança estão flagrando pessoas roubando beijos, batedores de carteira honestos, ataques de amor, gentileza e esperança. Todo mundo tem razões para acreditar. Mande as suas com a ‪#‎todomundo‬ ."

A todo momento imagens pessoais são usadas em prol da venda do produto do fabricante sem as pessoas terem dimensão de que suas atitudes seriam posteriormente utilizadas para este fim. A névoa retórica começa com a primeira frase: "Câmeras de segurança" ao invés de câmeras de vigilância. O tom da propaganda é a esperança, a gentileza e o amor, valores universais necessários à uma sociedade "feliz". A cada frase há um momento da privacidade captada pela câmera de vigilância. O conceito de vigilância é posto ao lado desses outros conceitos de modo subliminar. Colocam no mesmo patamar a esperança de um mundo "melhor" através desses valores pretensamente universais com a invasão de privacidade e monetarização dessa invasão pela própria empresa. Poderíamos pensar que esta vende algo além de água com açúcar e corantes, mas não.

A questão mais relevante que se apresenta é "Como analisar os meandros de uma ideologia velada se ela mesma se expõe cinicamente (sem esconder suas intenções, mas apenas brandindo-as)". O cinismo só se traveste quando utilizam a palavra "segurança" ao invés de "vigilância" e quando mostram uma passeata política sem bandeiras vermelhas (apesar de ser a cor da logomarca), de resto nos grita aos olhos e ouvidos "Vigiamos você, colocamos sua intimidade (sexual inclusive) em rede nacional, lucramos com isso e vocês devem aceitar isso com um sorriso no rosto e compartilhar nossa mensagem nas redes sociais".
É paradoxo, mas não contraditória minha crítica. Poderia deixar passar apenas para não divulgar, mas continuo falhando por excesso ao invés de por falta. A maior parte das propagandas é feito para idade mental de dez anos, essa(e) pequen@ consumidor(a) vai crescer com todas estas mensagens no seu subconsciente e por mais que não queira nunca desconhecerá o produto. O lado bom é que a crítica só nasce do conhecimento e essa é a corda que as empresas nos vendem para enforcá-las, compremos.

Parafraseando o grande poeta Valmir Jordão
"Coca para os ricos,
Cola para os pobres.
Coca-cola é isso aí."

Pequeno escrito filosófico à uma pequena feminista


Schopenhauer constatou a decadência do modelo filosófico ocidental a partir da filosofia de Hegel. Por isso, buscou no hinduísmo, budismo e na sua própria filosofia o ascetismo pelo qual podia passar incólume pelas dores do mundo, a supressão do id (freudiano inspirado no seu conceito de "vontade") dando como exemplo a sua própria vida. O não querer como única forma de não sofrer.

A concepção nietzscheana apenas exacerba seus conceitos da falência ocidental, contudo, redimido pela própria exacerbação desta mesma "vontade de potência", para Nietzsche, no que veio a ser o arquétipo do "além homem". O ascetismo schopenhauereano em contraposição ao indivíduo quase hedonista nietzscheano é sintomático (de sua metáfora do apolíneo e do dionisíaco, por vezes) de uma contemporaneidade marcada pela dicotomia do cristão - este que nega a vontade, inclusive a sexual (negando-lhe até mesmo a sua função na manutenção da vida humana na Terra) já que concebe que uma virgem é quem concebe o redentor dos pecados do mundo - e do ser hedonista ao extremo (que leva a cabo sua satisfação à parte de qualquer código ético/moral). Kant, Schopenhauer, Tomé (em seu "escanteamento apocrifante") situam-se na via oriental e horizontal à parte desta pretensa dicotomia que se nos apresenta.


À construção de uma quarta via, faz-se necessário a filosofia do grupo marginalizado historicamente por esses modelos: as mulheres. A partir desta constatação à mim só me resta, como a Wittgenstein, calar.

terça-feira, 17 de abril de 2012

#NãoOcupeSemSaber

Como o objetivo do blog é falar de coisas relevantes na atualidade, apesar da falta de tempo de atualizar deste que vos fala, gostaria de fazer uma breve análise discursiva de um texto que vi por esses dias. Inicialmente gostaria de dizer que não tenho nada contra a pessoa que o escreveu, sequer a conheço, mas o que me chamou atenção no texto foi a retórica simplista que esta pessoa que escreveu se utiliza. Não venho com isso dizer que a autora constrói essas nuances discursivas conscientemente, mas que não me impede de racionalizá-las.
O texto está disponível em:


O texto é de uma publicitária e é publicitário. A autora diz que não está ganhando nenhum dinheiro da Moura Doubain (construtora do empreendimento que quase com certeza irá ocorrer independentemente da opinião pública), apesar de já ter feito comerciais para a mesma. Não me cabe questionar a idoneidade, nem a honestidade de ninguém, mas tal fato pode ter contribuído para a perspectiva que a autora adota. Apesar de ser bem escrito, direto, com palavras fáceis, a estética se sobressai ao conteúdo.
Não vou me ater as referências que ela utiliza para florear as suas concepções, porque não cabe aqui uma visão esteta do texto, mas suas práticas retóricas.


A retórica começa com a liberdade da autora que já citei (não estar sendo paga pela Moura Dubain, apesar de já ter sido empregada por esta) e, a partir desta, uma motivação pessoal de escrever o texto. Num segundo momento, a autora apropria-se do recurso de autoridade para afirmar que o que está dizendo não surge do nada (como os desinformados e contraditórios ocupantes do estelita), mas porque ela leu o projeto. Este recurso de autoridade é muito utilizado para supervalorizar a retórica, dotá-la de um poder acima dos outros (tanto leitores, quanto ocupantes do estelita).

Ela diz:
"A – Alguém que faz parte do movimento contra a verticalização mora, na prática, em casas com jardim e quintal? Porque eu não entendo uma sociedade que mora em prédios protestar contra a construção de, de, de… Prédios?"
Mais uma vez é latente o recurso de autoridade. Como você pode reclamar e ser contrário a prédios se você mora em um? Isso, contudo, não constitui uma contradição, já que o fato de a pessoa morar em prédio talvez lhe induza a não gostar da verticalização e perceba mais de perto as mazelas desse estilo de vida. A autora, entretanto, se utiliza do que poderia ser um ponto a favor da manifestação contra ela. Se você mora em um prédio, provavelmente é porque o mercado imobiliário lhe impeliu a isto, comprando o local onde morava uma pessoa e vendendo para moradia de 50, 100 pessoas e lucrando absurdamente com isso.

A segunda propensa contradição é que as pessoas que são contra, passam as férias nos EUA, ou em lugares com muitos prédios. Não vou me deter muito nessa contradição porque isso nada mais é do que um devaneio. Quem lota a embaixada dos EUA (disso posso falar porque moro muito perto e vejo quase todo dia filas quilométricas) são pessoas de alto poder aquisitivo, todos comprando água de coco por 3 reais, ou 3 e 50, guarda-chuvas pelo dobro do preço, com seus óculos de sol caríssimos e seus cabelos escovados. Tirando o fato de que constitui novamente uma retórica de autoridade, onde não se julga os argumentos, mas a competência e conhecimento de quem argumenta.

A terceira propensa contradição é que se há um vazio a tanto tempo no cais, por que só agora se resolveu fazer alguma coisa quando decidem construir o belíssimo projeto intitulado: "novo recife" ? Mais uma vez um recurso de autoridade na fala. Ela se utiliza de uma omissão pretérita para negar e descredibilizar uma ação presente.

"Vamos lá: você que mora numa casa e que é contra prédios, detesta a Moura Dubeux (e ainda nem sabe que além dela a Prefeitura, o Governo e mais três construtoras fazem parte do projeto), não quer o Recife parecendo Nova York e odeia revitalização sabia que:

A – Bares, restaurantes e livrarias também serão construídos na área?

B – Um praça faz parte do projeto?

C – Ciclovia, pista de cooper e um píer estão incluídos na planta original?

D – Empregos diretos e indiretos serão gerados durante e depois da construção?"

Repare que ela se dirige a quem mora em casa, pois, quem mora em prédios não tem legitimidade discursiva de ser contra o projeto de verticalização do Moura Dubain e adendos. Devemos ser a favor do projeto porque bares, restaurantes e livrarias serão construídos, além da ciclovia, pista de cooper e um pier.
Bar realmente não é uma coisa que falte no recife antigo. Quem passou, mesmo que só uma vez e de carro pelo local sabe que não faltam lugares dedicados a nobre atividade etílica. Uma das melhores livrarias também fica próxima ao lugar onde o projeto vai ser implementado (até porque, quem patrocina as campanhas de governadores, prefeitos, deputados e vereadores são estas mesmas empreiteiras). Como ciclista, as vezes que passo por ali não vi problema algum, muito menos se comparado a outros trechos do recife onde as vias são inadequadas(muito eufemisticamente falando), o trânsito é absurdo e os carros não se importam em lhe fechar sempre que podem.
Realmente serão gerados milhares de empregos, a construção civil está em segundo lugar no quesito de empregabilidade do país. Mas e aí? Só existe essa forma de gerar emprego? Bezerra da Silva costumava brincar dizendo que um malandro gera cinco empregos: O policial pra prender, o delegado pra autuar, o promotor pra acusar, o juiz pra prender e o advogado pra soltar. O exemplo é perfeito, porque não importa a ética, ou os valores envolvidos nisso, apenas os empregos gerados.

Os "argumentos" se resumem a isso. O texto é cheio de uma ideologia desenvolvimentista, que se omite ante as contradições da sociedade e simplifica a questão entre, escolhidos (que podem comprar um apartamento na área) e não escolhidos (que não podem e querem atrapalhar a felicidade alheia). Contudo, o mundo não se resume a propensa dicotomia. Vivo numa das cidades mais desiguais do mundo, com um problema de mobilidade urbana, corrupção, nepotismo, autoritarismo, etc. O menor dos problemas é uma publicação numa mídia alternativa, mas do mesmo modo que não posso me omitir ante todas essas mazelas não posso e não devo me omitir ante a legitimação dessa lógica cruel e que apenas corrobora ainda mais com as disparidades da grande, cada vez maior (apesar de seus arranha-céus) província Pernambucana.










domingo, 5 de fevereiro de 2012

Da impossibilidade de argumentação ou Dos limites argumentativos da racionalidade

Como o leitor imaginário deve saber, Schopp era conhecido por ser um filósofo irracionalista, não pelo fato de ser irracional, mas por demonstrar as limitações do processo de racionalização da vida. Contanto, não via alternativa a esta ausência de sentido do viver, que não o ascetismo. Nesse ponto, Nietzsche - e eu também - discorda deste que considerava tão grande filósofo.


A parte da solução encontrada por Schopp, o que importa é o questionamento levantado por este. Se não há um sentido lógico-racional para as contingências de nossa existência, como podemos viver na crença de um mundo racionalmente administrado? Ocorreu-me hoje que a própria razão e a própria lógica argumentativa responde a outros tipos de estímulos que não necessariamente ligados a alcançar uma solução,senão, muito mais ligados a imposição de um ponto de vista. Me recordei de uma frase que ele fala :"Os homens usam-se da razão para legitimar suas vontades e não o contrário". A vontade, ponto principal do seu trabalho filosófico mais importante, é quem governa a razão, e quando esta já não dá conta de contrapor-se racionalmente e sistematicamente ao objeto discursivo em questão recorre à retórica. O que Schopp chama de argumento ad hominem. Tornando-se impossível a argumentação ante a vontade alheia...


Este mesmo filósofo dizia que não é preciso ler toda a obra de determinado autor para saber se esta é, ou não, ruim. Basicamente é o que ele fez com a obra hegeliana contrapondo-se aos seus princípios apriorísticos que impõem-se como fatos, quando na realidade são apenas percepções.


Muito interessante esse vídeo sobre a percepção de Schop com relação a "Existência como doença". Vale a pena dar uma olhada, traz um resumo muito interessante sobre a obra deste autor que infelizmente continua sendo muito pouco estudado na academia.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

A construção filosófica e cinematográfica como crítica fundamental ao projeto de modernidade

A abordagem de uma temática tão complexa exige do autor que se propõe a tal abordagem, bem como do leitor, um nível de objetividade elevado – para ser no mínimo eufemístico – que talvez não corresponda a liberdade subjetiva que a presente atividade permite. Contudo, já que esta liberdade está posta, de modo que, fique ao critério do autor escolher a abordagem, sinto-me na obrigação de construir o artigo de modo que me convir.

Posso enumerar incontáveis aspectos da obra de arte que desmistificam o projeto de modernidade tão bradado pelos legitimadores do modo de produção capitalista – do mesmo modo que os projetos artísticos que legitimam o mesmo, como o futurismo (abordado pela perspectiva de Walter Benjamim em “A obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica”) – que findou por perder suas características fundamentais, o que de certo modo fez com que autores contemporâneos declarassem a morte do mesmo num pretenso “pós- modernismo”. Como todos os “pós” e “prés” esta perspectiva (pós- moderna) pauta-se no movimento que se declara “morto” (modernismo). Se analisarmos criticamente este movimento perceberemos características do princípio do modernismo, bem como, do seu meio e “fim”.

Zygmund Baumam, o sociólogo mais lido na atualidade, refere-se as relações uma diluição/ liquefação dos laços familiares, identitários e etc., do mesmo modo que, a perspectiva de tempo como sendo de uma “presentificação” constante e de uma aceleração na sua vivência. Baumam sugere que somos como pessoas correndo sobre uma fina camada de gelo, não importa o rumo que estamos tomando, mas a velocidade que temos de impor a nossa caminhada para que não caiamos em um mar gélido.
O mais interessante é que o título de um artigo fundamental deste pretenso movimento, que “falece” o projeto moderno, possui o título de “Tudo que é sólido se desmancha no ar” (frase cunhada por Karl Marx em meados do século XX) e se referem as pessoas como mercadorias de troca como outra qualquer e das coisas como “subjetificadas”, possuindo características dos indivíduos (O que não se encontra de modo algum além do conceito de reificação marxiano, bem como, de sua célebre frase “o capitalismo torna todas as relações interpessoais em meras relações mercantis”). De certo modo, o que se caracteriza como pós- moderno termina sendo o que Jacques Aumont diz ser tipicamente moderno, retomar algo muito conhecido e dar-lhe uma impressão de novidade (ou, na opinião da filósofa Marilena Chaui, a simples mudança de nomenclatura do que se caracterizava como neoliberalismo).

A principal característica que distingue o tratamento dado a obra de arte no capitalismo (seja financeiro, mercantil e até mesmo primitivo) é a sua capacidade de transformação de sua mais mordaz e sagaz crítica em mais uma mera mercadoria. Isto ocorre tanto na arte, quanto na ciência, quanto em críticas cunhadas a parte destas duas instâncias discursivas. Seja Karl Marx, Foucault, Orson Welles, Arthur Schopenhauer, Nietzsche, o capitalismo consegue mercantilizar sua própria critica. É este processo de regugitrofagia que também pretendo abordar criticamente no presente artigo. Uma obra, mesmo que seja iconoclasta é reapropriada pelo capitalismo que “transforma ferrão em abridor de lata”.
O que caracteriza profundamente o capitalismo é a totalidade de seu projeto, bem como do que chamamos de modernidade, que como Aumont relata, está tão esvaziado em decorrência de seu uso indiscriminado que se torna difícil erigir alguma critica e até mesmo de caracterizá-lo. Em decorrência desta totalidade, este processo se torna em certo aspecto, totalitário, não admitindo outra forma de organização do espaço e do tempo, padronizando-os.

O que mais me interessa no cinema é como se podem ser democratizados, de maneira simples, os mais complexos conceitos e críticas filosóficas, sociológicas históricas, psicológicas (entre outros) tornando-os conceitos imagéticos muitas vezes de fácil assimilação (assim como, esta obra subverte a lógica do pensamento reificante/ mercadológico).
Para citar alguns exemplos, dois cinematográficos e dois filosóficos, gostaria de citar quatro obras que considero fundamentais para esta perspectiva. A primeira diz respeito a obra do filósofo, já citado, Arthur Schopenhauer, a segunda do cineasta, também já citado, Orson Welles, a terceira diz respeito a obra de Platão (O Banquete em especial) e quarta refere-se ao “Show de Truman” atuada por Jim Carrey. Ao meu ver estas obras possuem uma forte ligação no que diz respeito a desconstrução do principal sustentáculo das ideologias caracterizadoras do capitalismo (contemporâneo e pretérito, como já falado) cunhadas em um único arcabouço denominado modernismo. Esta característica basilar está atrelada a uma idéia de pretenso progresso técnico, científico e histórico de uma maneira geral. A modernidade casou-se com o progresso e até os dias atuais gera profícuos filhos que os sustentam, mesmo que lhe atribuam outras nomenclaturas.

A obra de Schopenhauer atrela-se ao pensamento de Welles, pois, é contrária ao pensamento filosófico que embasa a perspectiva supracitada (a tradição hegeliana filosófica e histórica que torna crível, através de sua dialética, esta visão) e isto é muito bem demonstrado “praticamente” em “Cidadão Kane” de Welles.
Schopenhauer possuía uma visão de história “caótica”, onde as coisas tomavam rumos que não necessariamente chegariam em uma maior democracia, liberdade, horizontalização do conhecimento e das riquezas geradas pela sociedade (como cria o herdeiro da tradição hegeliana, Karl Marx, por exemplo). Ele faz uma critica aos que lêem muito, dizendo que estes usam livros como escudos para não pensarem autonomamente, bem como, a filosofia universitária que está sujeita a um aparato estatal e que, de certo modo, termina servindo para legitimação do mesmo e não para a busca do saber e da caminhada rumo ao conhecimento. É justamente o que faz a filosofia hegeliana ao tornar o estado prussiano a vanguarda do processo “civilizatório” (apesar de não usar estes termos possui esta denotação) da humanidade. Do mesmo modo que Marx usa a industrialização inglesa e européia de um modo geral, como o baluarte do progresso humano. Na minha concepção, esta perspectiva marxiana termina por legitimar o que supostamente contesta, ao embasar-se na mesma para erigir sua crítica e seguir a mesma lógica do seu objeto de contestação.
Finalmente dirigindo-me a construção critica do cinema, este, apesar de seguir intrinsecamente a lógica do capital (principalmente por ser uma obra de arte mais onerosa do que as demais), pode servir como meio de veiculação de uma critica profunda a concepção ideológica do progresso e do projeto de modernidade. No caso em questão (“Cidadão Kane”), Welles mostra como a mídia apesar de seu desenvolvimento técnico pode continuar seguindo a lógica do monopólio e não caminha necessariamente rumo a democratização. Algo essencial para percebermos isto é o modo como os tecnófilos caracterizam as novas mídias (como a internet, blogs e etc.), como intrinsecamente democráticas, do mesmo modo que Brecht caracterizava o rádio em sua época (hoje em dia conhecido por ser um veículo, como a mídia televisiva, extremamente centralizado).

Remeto-me a estes nomes (Schopenhauer, Welles, Hegel, Marx) como “comodismo referencial”, não se constrói uma obra filosófica de tal profundidade sem “subir em ombros de gigantes” como falava Newton; tampouco se constrói uma obra cinematográfica de tamanha complexidade, como a citada, sozinho. É a contestação dessa perspectiva do autor, que fala Aumont e outros autores, que não torna contraditório este artigo, pois, este conceito (autoria) está intrinsecamente ligado ao desenvolvimento do capitalismo e a emancipação artística do artista (do clero e da nobreza) que constituem a base para a formação do mesmo. Agora, o artista se transforma em um profissional liberal e com isso dilui-se a figura do mecenas e sua arte tem que ser rentável (por isso, também, a questão da mercantilização da arte e da perda de aurática da mesma, para usar os termos de Benjamim).
Deste modo, concluo esta breve análise realçando a característica que mais me atrai no cinema, na ciência e em todas as práticas discursivas de uma maneira geral, a subversão que possuem estas práticas ao desvelar as ideologias contemporâneas que se pretendem absolutas e verossímeis. Uma obra que, para mim, é a perfeita “personificação” desta subversão/ desvelamento é o “Show de Truman”. O título é oriundo das palavras inglesas “true” (verdade) “man” (homem) “show” (mostrar). A estória aborda a vida de um homem comum que ao nascer foi vendido a um programa de televisão transmitido diariamente por todo o país, por todas as horas do dia. Truman não tem consciência de sua condição e todos os aspectos de sua vida foram atuações que ele sequer imaginava. Por acaso, passa a desconfiar da forma como as coisas acontecem e descobre a verdade acerca de sua condição e opta por fugir do programa e mostrar a verdade (“the man who show us the true” em inglês). Contudo, ao optar pela verdade é desacreditado pelo público, ao passo que quando vivia no simulacro era tido como verdade pelo telespectador. Nada que Platão não soubesse há três mil anos atrás.

Assim sendo, acredito que a luz do projetor de pode servir tanto como a luz da fogueira da caverna d”O Banquete” (Platão) que fazia com que os prisioneiros enxergassem monstros assustadores, como a luz que emanava do sol e que mostrava que as sombras do fundo da caverna não passavam na verdade de simulacro dos homens que o haviam aprisionado.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Horkheimer tomando um Schopp I

A idéia principal do meu projeto de monografia (que me demandou o tempo que não posto aqui) era abarcar a influência da obra de Schopenhauer no pensamento de Horkheimer. Ao formular a "teoria crítica" Horkheimer admite ter a influência principal de dois filósofos em sua vida, Karl Marx (obviamente) e Schopenhauer.

A princípio a obra dos dois parecem ser totalmente opostas, mas há uma luz no fim do túnel. Horkheimer percebe na última instância do pensamento Schopenhaueriano a existência de um materialismo em seu pensamento. Desta forma, através de um materialismo interdisciplinar, Horkheimer concilia as duas tradições aparentemente antogônicas.

A influência de Schopp também aparece latente na obra de Horkheimer no fato de o segundo, junto com Adorno, seguirem o exemplo deste ao teorizar sua dialética negativa em contraposição à já citada (estafantemente) dialética positiva hegeliana e marxiana.

No que concerne a questão da estética, essencial na obra de Schopenhauer, na "dialética do esclarecimento" Horkheimer, e Adorno, descrevem o capítulo XII da Odisséia como essencial ao arquétipo do homem moderno (Ulisses/ Odisseu) em sua relação com a arte. O canto das sereias leva os homens a "perdição", por isso astutamente Ulisses ordena aos seus homens que remem com os ouvidos cheios de cêra. Mas o próprio Ulisses não resistindo a tentação de ouvir o canto, amarra-se ao mastro e pede para lhe tirarem a cêra do ouvido.
Deste modo Horkheimer e Adorno mostram que o fato de ele ter se amarrado caracteriza bem a cultura no mundo administrado; a fruição estética é para poucos, um artigo de luxo, no entanto estes mesmo que a consomem encontram-se de mãoes e pés amarrados. Ao passo que, tmabém é inacessível para a imensa maioria, a quem concerne levar o barco adiante, sem noção da beleza em seu grau superlativo.

Se Schopenhauer idealizou uma sociedade na qual o indivíduo se emancipasse e transcendesse a partir da fruição estética, o projeto hegeliano foi bem sucedido, até hoje sofremos o espectro do ideal de progresso e a sociedade administrada caminha cada vez mais para sua totalidade. Frente a isso a análise de Horkheimer e Adorno tornam-se mais atuais do que nunca, principalmente no que concerne a sua influência da obra de Schopp que deixa claro na palestra intitulada "A atualidade da filosofia de Schopenhauer".

Mas como Horkheimer pode conceber enquanto atual uma teoria pretensamente ahistórica, já é conversa para outros bares...

sábado, 8 de janeiro de 2011

História, estória e esquecimento ou Schopp X Hegel Round II

A História define-se pelo trajeto do homem no tempo. Sendo estudada pelos registros que este deixa, sejam esses materiais ou imateriais.
Hegel acreditava - importante deixar bem claro que apenas cria - na "História universal". Uma história com "H" maíusculo - realmente, pra Schopp ele era um cara cheio de H - onde os registros historiados eram apenas os de relevância essencial para o ethos do ser no tempo, com licença Heideggeriana do termo.

O filósofo, sociólogo e principalmente estoriador Michel Foucult contrapunha a visão de uma história universal a uma perspectiva de estórias. Na visão foucaultiana não havia uma versão da história com um ethos universal, mas várias perspectivas sobre um mesmo acontecimento histórico.

A busca hegeliana por um norte histórico é de extrema relevância, contudo - apesar de se esforçar como Kiekegard numa verborragia que beira o inenarrável (apesar de o caso de Keikeggard buscar tirar o leitor de uma contemplação estética) por negar o que afirmo - ao mesmo tempo que norteia também cria um sul, simultaneamente a definição vem a limitação, a exclusão de uma perspectiva periférica já excluida.


Na visão Schopenhauriana o tempo simplesmente não existe. O tempo é relativo a percepção de cada um. Se quando alteramos nossa percepção seja pelo uso de substâncias extra corpóreas, seja intra, temos uma visão de tempo "distorcida", que parâmetros podemos utilizar para supor o que seria uma visão de tempo normal?
Como diria Foucault, normalidade ou loucura é apenas uma questão quantitativa.
O louco na visão dos que estavam na caverna alegórica de Platão era o que havia visto a luz.
O cego era ele, inclusive porque, não conseguindo se reacostumar a falta de luz tropeçara e esse "fato" embasava ainda mais a crença dos que estavam presos a sombra.
De fato, quando alguém vê a luz jamais retorna a sua condição antiga.
Mas não se pode acordar quem finge estar dormindo.